Novembro Azul é o mês dedicado à conscientização sobre a saúde do homem, sobretudo na questão da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de próstata. No entanto, precisamos ampliar o olhar para a inclusão e pensar na diversidades de corpos para que essa campanha cumpra um papel realmente transformador. È necessário falar sobre saúde do homem no Brasil sob a perspectiva da interseccionalidade, levando em consideração, raça, identidade de gênero e acesso aos direitos.
Já dialogamos aqui no blog que o homem negro enfrenta barreiras históricas e estruturais que impactam profundamente sua saúde. Não podemos tirar de vista que o racismo estrutural se manifesta nos atendimentos inadequados, na subnotificação de doenças e na falta de políticas públicas que considerem as desigualdades raciais. Dados mostram que homens negros morrem mais cedo, têm menos acesso à atenção primária e são as maiores vítimas de violências físicas e emocionais, e estes são marcadores que também afetam diretamente o autocuidado e a busca por serviços de saúde.
Em tempo, é fundamental incluir na conversa os homens trans e pessoas transmasculinas, que muitas vezes ficam invisibilizados nas campanhas de saúde voltadas ao público masculino. Muitos enfrentam medo, constrangimento e discriminação nos serviços de saúde, o que dificulta a realização de exames como o toque retal e a dosagem do PSA. Além disso, esses sentimentos impedem que esse público vá até procurar informação confiável, e tendo seuacompanhamento integral da saúde sexual e reprodutiva impedido.
Quando um homem negro trans chega a uma unidade de saúde, ele encontra as camadas do racismo, do machismo e da transfobia operando juntas. Por isso, pensar o Novembro Azul de forma interseccional é reconhecer que não existe uma única experiência de ser homem, e que as estratégias de cuidado precisam ser diversas, acolhedoras e culturalmente competentes.
Promover a saúde do homem negro e trans significa romper o silêncio, ampliar o acesso, formar profissionais para o atendimento humanizado e combater o racismo e a transfobia institucional. Significa, sobretudo, afirmar que todo homem tem direito a existir com dignidade, cuidado e saúde.
Referências
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Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH): princípios e diretrizes.
Brasília: Ministério da Saúde, 2008.
Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br
Brasil. Ministério da Saúde.
Política Nacional de Saúde Integral da População Negra: uma política para o SUS.
Brasília: Ministério da Saúde, 2017.
Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br
Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Apoio à Gestão Participativa.
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DOI: 10.1590/S0104-12902018180473
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Revista Estudos Feministas, v. 26, n. 3, e52230, 2018.
DOI: 10.1590/1806-9584-2018v26n352230
Rafaele Ribeiro
Membro e colunista do Instituto

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