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O orgulho não é “só” ser negro/a/e, mas também ser LGBTQIAPN+…

Imagem criada com IA

Imagem pública. 

O mês de junho é, mundialmente, reconhecido como o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+. É um período de celebração, memória e resistência das pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgêneras, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, não-binárias e de todas as identidades que compõem essa sigla cada vez mais inclusiva e plural. Mas, para compreendermos a real profundidade do que significa “orgulho”, é fundamental olhar para as intersecções que moldam a experiência de quem vive na pele múltiplas formas de opressão — e é nesse ponto que entra a centralidade das vivências de pessoas negras LGBTQIAPN+.

Falar sobre orgulho e diversidade sem considerar raça é correr o risco de reproduzir a exclusão dentro de uma luta que deveria ser para todo/a/es. A população negra, historicamente marginalizada pelo racismo estrutural, carrega as marcas de séculos de violência, exclusão social e apagamento. Quando somamos isso às opressões motivadas por identidade de gênero, orientação sexual, romântica e expressão de gênero, temos um grupo que vive sob o peso de múltiplas camadas de marginalização.

Pessoas negras LGBTQIAPN+ também podem encontrar resistência dentro da própria comunidade que, por vezes, ainda não acolhem plenamente identidades sexuais e de gênero dissidentes. Isso gera um sentimento de não-pertencimento constante: estar em todos os lugares e, ao mesmo tempo, ser rejeitado por muitos deles.

Contudo, é justamente nesses cruzamentos que nascem formas potentes de resistência e criação. A história da luta LGBTQIAPN+ está intrinsecamente ligada à contribuição de pessoas negras. Marsha P. Johnson, mulher trans, negra e pobre, foi uma das protagonistas da Rebelião de Stonewall, marco do movimento moderno pelos direitos LGBTQIAPN+. A presença negra foi – e continua sendo – um alicerce da luta por liberdade e dignidade para todos os corpos dissidentes.

No Brasil, essa realidade é ainda mais urgente. Somos o país que mais mata pessoas trans no mundo — e, entre as vítimas, a imensa maioria é de mulheres negras e periféricas. Ao mesmo tempo, temos lideranças potentes, como Erica Hilton, Linn da Quebrada, Symmy Larrat e tantas outras pessoas negras LGBTQIAPN+ que vêm desafiando a normatividade, propondo novas formas de existir, criar arte, fazer política e ocupar espaços de poder. Mas e quantas outras potências não estão sendo excluídas dos holofotes ou do simples fato de estarem em ambientes seguros sem ter o pleno direito de existir?

 

Video exemplo de evento do Orgulho Negro (em Londres) 

Portanto, o Mês do Orgulho não pode se resumir a bandeiras coloridas em vitrines ou a slogans vazios. Tanto é que com o movimento internacional conservador, muitas marcas este ano não aderiram ao pinkwhasing. Ele deve ser, acima de tudo, um chamado à responsabilidade coletiva. Precisamos garantir que o orgulho inclua todas as pessoas. Isso significa combater o racismo dentro dos próprios movimentos LGBTQIAPN+, mas também combater a homofobia e outras práticas discriminatórias dentro dos nossos movimentos negros. Criar políticas públicas que levem em conta as especificidades da população negra queer, além de construir espaços de acolhimento que não reproduzam exclusões históricas.

Celebrar o orgulho LGBTQIAPN+ é também afirmar que não há justiça sem justiça racial. É entender que a liberdade só é verdadeira quando alcança todo mundo e que a luta contra o preconceito precisa ser interseccional, plural e radicalmente inclusiva.

Temos orgulho de dizer que a nossa equipe do Letra é composta por ao menos 70% de membros pertencentes a comunidade LGBTQIAPN+. Esperamos que em todos os meses possamos reconhecer, honrar e amplificar as vozes negras LGBTQIAPN+ que, mesmo diante de tantas violências, silenciamentos e adversidades, continuam criando caminhos de beleza, coragem, revolução e futuro.

Referências

COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. Tradução de Alex Ratts. São Paulo: Boitempo, 2019.

FACCHINI, Regina. Sissies e sem-vergonhas: homossexualidade masculina no Brasil. São Paulo: Garamond, 2005.

MOTT, Luiz. Homossexualidade: um olhar antropológico. Salvador: EDUFBA, 2003.

GGB – GRUPO GAY DA BAHIA. Relatório de mortes violentas de LGBTQIA+ no Brasil em 2023. Salvador: GGB, 2024.

Por Rafaele Ribeiro
Colunista e membro do Instituto 

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